O PODER DA LÍNGUA

Sempre soube da força que tem as palavras, do poder da língua e da devastação de que é capaz um simples boato, mas nunca em minha vida havia visto tão de perto o que vi esta semana em Brasília e que ora passo a contar-lhes, com a alma ainda repleta de uma vitória que certamente veio pelas mãos de Deus.

Antes, gostaria de lembrá-los da luta da Busscar para se manter no mercado após a morte de seu fundador, Harold Nielson, num acidente de avião em 1998. Neste ano, a viúva de Harold e seus filhos contrataram profissionais para administrar a empresa, essa gestão terceirizada durou até 2003 e, durante esse período, a situação piorou a cada ano, até chegar a uma terrível crise. Em 2003, Claudio Nielson, um dos filhos de Harold assumiu a empresa na tentativa de reabilitá-la, mas com a crise mundial que teve início em 2008, a Busscar passou a enfrentar novos problemas que colocaram sua existência e o emprego de 4 mil funcionários em risco.

Envolvimento e esperança

Muito bem, em fevereiro de 2009, eu tentava uma agenda com o presidente Lula para tentar agilizar o pagamento do crédito do IPI, no valor de aproximadamente 650 milhões de Reais, de uma ação julgada pelo Supremo Tribunal Federal que deu ganho de causa à Busscar. Marquei um encontro entre a Senadora Ideli Salvatti e Claudio Nielson para que ela, na condição de líder do governo, pudesse interceder junto ao governo nesta questão, bem como no financiamento de 40 milhões do BNDES, que serviria para a empresa comprar matéria-prima para entregar ônibus vendidos à Guatemala. A senadora disse que resolveria isso. Porém, de fevereiro de 2009 para cá, não houve retorno.

Com a crise mundial, os trabalhadores da empresa resolveram se mobilizar e realizar um movimento em Joinville na tentativa de salvar a Busscar, mas o prefeito não os recebeu. Dispostos a ir longe para manter seus empregos e a empresa, se mobilizaram, desta vez para irem à Brasília e 40 ônibus partiram rumo à capital federal. Na noite da partida, a Senadora Ideli ligou dizendo que conseguira uma reunião com o BNDES. Já era tarde, havia passado mais de um ano do pedido. Os trabalhadores não deixaram Claudio Nielson partcipar, “Agora não adianta mais”, diziam. Claudio entendeu que eles estavam certos e não foi à reunião. Para a Senadora, o presidente da Busscar não teve a preocupação de atender ao seu chamado, era prova de má vontade. Mas os trabalhadores sabiam que a verdade não era essa.

Não existe isso no Brasil

Quando chegamos a Brasília, a ida do presidente ao evento já havia sido desarticulada e não conseguimos falar com ele. Um assessor de Lula quis saber do que tratava o assunto que trouxera aquela comitiva à capital. Explicamos e ele, sensibilizado, conseguiu uma reunião com Gilberto Carvalho, o chefe do gabinete de Lula.

No gabinete, o assessor que marcou a reunião, não quis deixar Claudio Nielson entrar porque temia colocar capital e trabalho juntos para discutirem os rumos da empresa. A pedido dos próprios funcionários, Claudio pode entrar e participar da reunião, e pode também ouvir logo no início da conversa, de Gilberto Carvalho, que se a administração da empresa não mudasse, não seria enviado nenhum dinheiro para a Busscar. Ao ouvirem isso, os empregados partiram em defesa da administração atual de forma contundente e em diversos momentos, comovente. Um dos funcionários chegou a dizer que tinha vergonha, pois não estava produzindo nada, mas recebia seu salário em casa e, apontando para Claudio, finalizou: por causa deste senhor aí.

Claudio tomou a palavra e mostrou a forma como vem administrando a empresa, de maneira transparente, com prestação de contas mensal aos funcionários. Depois disso, o chefe do gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, mudando de tom, falou: “Peraí gente, o que eu estou vendo aqui, nunca vi em minha história: empregados com salário atrasados vêm aqui, com lágrimas nos olhos, defender o patrão? E o patrão me mostra uma administração transparente… Não existe isso no Brasil!”.

A língua, a verdade e Deus.

Percebendo a verdade dos fatos, Gilberto abriu o jogo para todos nós e disse que a informação que havia chegado em Brasília era de que se tratava de mais um caso de patrão sem-vergonha que rouba do empregado para ficar rico. “Isso não tem nada a ver com o que estou vendo aqui”, disse. Ao ouvir isso, Claudio Nielson chorou e os funcionários, muito comovidos, também. Visivelmente sensibilizado, Gilberto emendou “Hoje eu entendi a verdadeira história e a conversa vai mudar”.  Gilberto prometera mostrar a situação a Lula e também uma solução para a Busscar até a próxima quarta-feira.

Voltei a Joinville pensando no que acabara de ver: uma língua ferina dissera que a administração da Busscar era péssima, que os donos enriqueciam às custas de empregados explorados, isso envenenou Carlito, Ideli e toda a cúpula do governo, uma única e perversa língua quase acabava com o sonho de 4 mil funcionários e de uma das tradicionais famílias de Joinville, que se mostra digna e disposta a honrar a iniciativa e o trabalho de Harold Nielson.

Durante a viagem de volta, encontro dois versículos da Bíblia, no livro de Tiago, e dizem: “Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal” (Tiago 3:8); “Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (tiago 3:9).

Lembro de Carlito, em 2003, lutando para que o BNDES liberasse o dinheiro para a Busscar, e de Carlito, em 2009, não recebendo os funcionários da empresa. Ele fora envenenado, e também Ideli, e todo o governo. Enquanto os funcionários, sem comer, sofriam pressão, choravam e tentavam reverter a situação em Brasília, entrevistas eram dadas em rádios difamando a administração da Busscar. Mas a força de 4 mil funcionários e de uma administração transparente esmagaram a serpente da difamação.

Tive o privilégio de participar disso, de contar a Gilberto a cronologia da Busscar e ajudá-lo a entender que a família Nielson não era culpada pelos desmandos da empresa entre 1998 e 2003. Pude ver também, por que o presidente Lula conta com tamanha aceitação: ele tem ao seu lado pessoas sensíveis que sabem ouvir e discernir, como o seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho.

Em Brasília, pude ver que a essência do PT nacional é diferente do PT de Joinville, que se deixa envenenar por uma mísera língua, esse chicote! E torço para que tal envenenamento tenha-se dado por insensatez e ignorância e não por interesses outros, que envolvam guerra mercadológica ou interesses particulares.

Digo a vocês, e de todo coração, que quando 4 mil vozes se levantam e lutam com verdade e dedicação, não há língua maldosa que vença a batalha. Volto de Brasília, tendo visto diante de meus olhos, um Deus reinar soberano sobre os justos. Amém.

Kennedy Nunes
Deputado Estadual

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